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despedida
Fusão invencível
Até o fim da vida ela cantou e rezou em alemão. Mas aprendeu a dançar forró e comer macaxeira no café da manhã
DORRIT HARAZIM
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Observar Zilda Arns fazer as malas e partir em viagem era uma aula de "Eficiência Máxima com Risco Mínimo". Bastava observar o minimalismo com que executava a tarefa para entender por que a pantagruélica Pastoral da Criança nunca saiu dos trilhos. Criação e criatura se espelhavam numa mesma cartilha: "Pensar e planejar é ótimo, mas o importante é fazer e resolver."

Um dos quartos do apartamento de Zilda Arns, em Curitiba, era reservado ao material necessário para a sua vida pública. O armário embutido tinha roupas, sapatos e adereços de uso apenas para viagens e agenda profissional. A cama servia para espalhar e organizar itens que precisavam caber na bagagem. "Quando entro aqui, não desmobilizo a cabeça", explicava. "Mas, quando estou no meu quarto, faço questão de me sentir completamente livre, só comigo mesma. Nele, não quero saber de serviço. Nem a minha bolsa eu quero ver na minha frente."

O primeiro evento de uma viagem seria em estúdio de televisão? Sapecava logo um broche da Pastoral na lapela do traje que iria usar. Para homenagens em cidades múltiplas, levava um só conjunto coringa (blazer, tubinho básico, sapato de salto sensato). Já em caso de eventos múltiplos numa mesma localidade, escolhia peças avulsas intercambiáveis. Item obrigatório para missões de muito bate-perna: o par de chinelos dobráveis, acondicionado em saquinho próprio, cortesia de uma empresa aérea.

Sua mala preferida, apesar de compacta, permitia acondicionar vestidos e jaquetas com uma única dobra, em vez de duas. "Assim amassa menos e dispensa ser passado a ferro na chegada", esclarecia, satisfeita. Com o tempo, e a milhagem crescente, elaborou uma lista de hotéis brasileiros que não cobram serviço de passadeira. Sua técnica de dobrar peças mantendo colarinhos e mangas lisinhos merecia ser patenteada.

Foram pelo menos vinte anos com uma média de 45 viagens por semestre, e apenas três extravios de bagagem. Um deles, em 1994, roubou-lhe a elogiada serenidade, face neutra que disfarçava a sua tenacidade. Ao desembarcar em Washington, numa manhã de sábado, para receber o prêmio internacional da Organização Pan-americana da Saúde, a mala com a "roupa chique" tinha sumido. Foi a um supermercado comprar uma blusinha enquanto esperava a mala que nunca veio. Por isso, a homenageada da soirée de gala subiu ao pódio vestindo blusinha de supermercado. Aprendeu a lição: a bagagem de mão, até então reservada para materiais de trabalho ("a única coisa que não pode extraviar nunca") passou a abrigar também uma muda de roupa multiuso, zipada em plástico.

Poucas são as mulheres que encarariam com naturalidade uma viagem Curitiba-Timor Leste nos moldes do périplo realizado pela médica e sanitarista, aos 66 anos de idade. À época, o Brasil ajudava a reconstrução da ex-colônia portuguesa devastada pela guerra, e a implantação da Pastoral da Criança fazia parte da empreitada. Embora integrasse a comitiva do presidente Fernando Henrique Cardoso, a Dra. Zilda partiu em voo comercial, enquanto a caravana oficial seguiu no avião presidencial.

Chegou para o embarque com uma bagagem de 90 quilos. Para uma viagem que a levaria a três continentes, seus pertences pessoais ocupavam apenas uma mala pequena. O restante do excesso de peso estava tomado por material didático, dez balanças de pesar crianças e mil colheres de medição do soro caseiro. Na bagagem de mão, acrescida de duas sacolas, a pediatra acomodou camisetas com o emblema da Pastoral e material de treinamento de parteiras leigas. "Assim, pelo menos, garanti o serviço", explicou na volta. "Eu quis levar o máximo possível comigo, porque a posteriori tudo seria mais complicado pela distância e difícil comunicação." Para um dos cinco  filhos, Nelson Arns Neumann, à época epidemiologista e até hoje coordenador-adjunto da Pastoral, nenhuma novidade. "Com a mãe nada fica para depois, e infeliz daquele que vier com relatos de dificuldades", comentou.

Ao desembarcar em Díli, capital do Timor Leste, Zilda Arns tinha lido o suficiente - e um pouco mais - sobre o país cuja população equivalia à metade do número de crianças brasileiras acompanhadas mensalmente pela Pastoral: 1,6 milhão. Ela estava pronta para dar palestras, explicar, perguntar e ouvir. Sabia que apenas 20% dos timorenses falavam português, que o indonésio e o inglês continuavam sendo idiomas de negócios, e que as palestras dos brasileiros seriam traduzidas para o tétum, a língua nacional da jovem nação. Durante a estadia, fez anotações de tudo que julgou útil ou pertinente.

Na viagem de retorno, atravessou vários fusos horários e incluiu escalas com reuniões em Jacarta, na Indonésia e Cidade do Cabo, na África do Sul, até cruzar o Atlântico e pousar em Brasília - onde pegou a conexão para Curitiba. Ao todo, Zilda Arns ficou socada dentro de um avião três dias. Na manhã seguinte, uma quinta-feira, dava expediente na sede da entidade, no bairro de Mercês. E no fim de semana escreveu um relatório de dez páginas intitulado "Memória da minha viagem ao Timor Leste na comitiva presidencial do senhor presidente da República Fernando Henrique Cardoso (18 a 24 de janeiro do ano 2001)". Para quê? "Ora, para que a memória seja guardada", respondeu, surpresa com pergunta tão óbvia. É pouco provável que outro integrante da comitiva tenha produzido tão rápido um texto tão informativo - se é que alguém escreveu algo.

O voo rasante de Zilda Arns sobre Díli gerou resultado imediato também para a Pastoral. Passada uma semana, a sergipana Ana Ruth Góes, graduada em obstetrícia e pediatria, e coordenadora estadual da entidade, recebeu um telefonema de Curitiba. A Dra. Zilda queria saber se ela aceitava implantar a Pastoral em Timor Leste. "Precisamos capacitar umas trinta agentes, além de formar algumas lideranças", indagou e comunicou.

Feito. Em julho do mesmo ano, Ana Ruth, irmã Maria de Lourdes Mattiello e Odete Dorigon embarcavam para uma estadia de três meses no outro lado do mundo. O Timor Leste tornava-se o 13º país para onde o Brasil exportava o que tinha de melhor.

A morte de Zilda Arns aos 75 anos  no interior da Igreja Sacré Coeur, em Porto

 
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