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diário
Cliente folgado leva coco ruim
EMIR FAYAD
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Sangue de comerciante ele tem. De descendência síria por parte de mãe e libanês por parte de pai, o carioca Emir Fayad tem a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar a seu serviço. Há quinze anos, numa Kombi, ele vende coco num dos pontos mais cenográficos do Rio de Janeiro: ao lado do Monumento Estácio de Sá, no parque do Flamengo. Emir e a esposa Maria das Dores já tiveram uma lanchonete de comida árabe em Copacabana. Com o cunhado, teve uma mercearia na Tijuca. E trabalhou na venda de gelo e carnes para um frigorífico de Bonsucesso. Agora, ao completar 50 anos de idade, não quer mais trocar de vida. Com uma filha de 22 anos que cursa administração de empresas, está feliz. "Ela é crânio", diz, orgulhoso. "Mas não sabe cortar coco."

QUARTA-FEIRA, 13 DE JANEIRO_Acordei superpreocupado. Estava um calor de rachar e quando isso acontece meu fornecedor fica totalmente atolado. Quer abraçar o mundo com as mãos. Cheguei com a Kombi no meu ponto do Aterro e ele só tinha feito a entrega do gelo. Para conseguir meu coco do dia precisei ligar correndo para outro fornecedor.

O carregamento vem de vários estados - Sergipe, Bahia, Paraíba, Espírito Santo - e quando chega aqui no Rio, o meu fornecedor, o Gama, repassa tudo para caminhões menores, que fazem a entrega nos pontos. Só na cidade, entregam 5 mil cocos por dia, sem contar as lanchonetes e outros estabelecimentos comerciais. Além de distribuidores, eles também são produtores, têm uma fazenda imensa no Rio Grande do Norte, de onde despacham um caminhão por semana. Cada coco me custa 1,50 real no verão (cai pra 1 no inverno) e vendo a 3 reais. Mas precisa descontar o gelo, o canudinho, o meu trabalho, a gasolina, os 130 reais do ajudante nos fins de semana e tudo o mais.

Um viajante argentino estacionou o trailer do lado da minha Kombi e queria saber detalhes do local, para descansar. Estava só de passagem. Em matéria de turista, o que mais aparece por aqui hoje em dia é chinês. Eles nem sabem direito o que esperar de um coco, mas ficam curiosos e provam quando o guia deles toma. O turista mais amarrado em coco é o alemão. O francês não é muito ligado, não.

Passar os dias aqui é gostoso, mas tudo tem um preço. Sempre me dizem: "Poxa, você trabalha nesse lugar lindo, à sombra de uma amendoeira e com o Pão de Açúcar na frente!" Eu respondo: "Trabalho de bermuda e vou para casa na hora que quero. Mas enquanto vocês têm finais de semana, férias, décimo terceiro e todas as garantias, eu já estou aqui há quinze anos e nunca tirei um fim de semana inteiro."

A tarde estava gostosa, com o vento vindo do mar e os velejadores aproveitando para treinar. Vou embora mais cedo porque marquei um pôquer com os amigos. 

QUINTA-FEIRA_O pôquer na casa do meu amigo Barreiro acabou antes da meia-noite. Logo cedo eu estava na Central do Brasil, comprando bebidas, quando o fornecedor de gelo telefonou para dizer que ia deixar os sacos encomendados embaixo da amendoeira. Com o calor que está, fiquei com medo de derreter tudo até eu chegar.

O dia foi corrido, até parecia sábado. Mal acabei de pôr os cocos na geladeira de isopor e chegou a primeira cliente. Expliquei que só estava fresquinho, mas bem doce, e ela não recusou. A segunda cliente pediu dois de uma vez, um para ela, outro para o cachorro - ela sabe que tenho uma vasilha para cães.

Quando o movimento começou a esquentar recebi um telefonema. Era o subcomandante do 19º Batalhão, um dos meus clientes que virou amigo, dizendo que seus filhos gêmeos acabavam de nascer. Fiquei bem contente por ter sido incluído na satisfação dele.

Ao meio-dia, o Ronaldo do caiaque passou pelo meu ponto. Toda vez que o pes-soal do caiaque passa pedindo cer-veja ou refrigerante, a gente arremessa. Por causa do gás, a lata afunda, mas logo sobe de volta. Pena que não dá para jogar coco.

Perdi o número de vezes em que vendi fiado. O cliente vai correr, esquece o dinheiro em casa, mas a sede bate igual. Mesmo quando não o conheço, vendo fiado e digo que um dia ele passa e me paga. Contabilizo como perda para não me aborrecer. Mas a maioria volta e paga, mesmo quando não vem correr. Tem alguns que até mandam o dinheiro pelo motorista. Já pensou, mandar motorista para pagar 3 reais?

Duas da tarde é o pior horário para mim. Bate um sono tão grande que não resisto e acabo cochilando numa cadeira. Não sou só eu. Vários carros estacionam do lado para tirar uma soneca.

O movimento voltou a ficar intenso às quatro e meia. Com o calor, todos queriam algo para se refrescar. Mas notei que o sudoeste estava forte. Vi que vinha chuva e comecei a arrumar minhas coisas. Não deu outra.

SEXTA-FEIRA_Acordei às três da madrugada ao som de trovoadas. Decidi que tiraria o dia de folga. Em quinze anos de ambulante, só falto mesmo em dias de muita chuva. Assim perco menos dinheiro. Mas não tenho do que me queixar. Lembro do dia em que, passando pelo Aterro, olhei para aquele lugarzinho lindo, ao lado do monumento. Era 27 de outubro de 1994. Eu estava fazendo entregas de gelo e carnes para o dono de um frigorífico com a mesma Kombi azul, ano 1978, que tenho até hoje, quando liguei para a minha mãe. "Seria maravilhoso poder trabalhar com coco naquele canto, mãe", falei. Ela me deu a maior força. Eu tinha cursado direito até o 5º período na uerj, mas desisti. O que sei fazer é vender. A partir daí, passei a trabalhar de segunda a sexta para o frigorífico, e no fim de semana finquei pé no estacionamento público, com vista

 

 
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